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 FENOMENOLOGIA APLICADA NA CONCEPÇÃO DO MANEJO CLÍNICO DO ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO AT.

 

 

Arthur Tufolo*

 

 

Epigrafe 1                                                                             Epigrafe 2     

 

Entre a Nadidade e a Eternidade                                       Deus dorme nas pedras

                                                                                            Respira nas plantas     

Desacontecimento.                                                             Sonha nos animais e

Rica em pretensões,                                                           Desperta nos homens

Minha mundana vida.

Obscuridade: meu verdadeiro nome...

Completamente a mim mesmo, Eu existo. 

Não abrigo nenhuma alma em meu abraço.

Uma vez tendo aparecido, 

Condenado até o fim tenho que ser...

Todo sozinho

Sou susto de luz 

Entre a Nadidade e a Eternidade

 

 

 

Aplicar o método da fenomenologia para orientação das atitudes e procedimentos de um ser humano (que pode ser um Acompanhante Terapêutico, ou um pesquisador de qualquer área) em suas investigações ou seu manejo clínico de cuidador, representa um grande desafio.

O que o leitor irá perceber é que a visão aqui apresentada é singular e claramente tendenciosa.

Digo isso porque, nessa metodologia se empregam protocolos de procedimentos precisos, porém a meu modo de ver de rigor questionável. Tudo que merece investigação, advém de uma obscura origem e a precisão não contempla a obscuridade. Já a atitude rigorosa dá conta do que é originariamente obscuro, como mostram as descrições dos poetas e filósofos. A busca de uma concisão objetiva ficaria naturalmente comprometida, dada sua profunda incompatibilidade com tal abordagem.

Detalhe: fenomenologia é uma escola distinta; apesar de encontramos algum parentesco referido ao pensamento oriental, ela surgiu no Ocidente a partir da tradição grega, podendo-se mesmo afirmar que estava presente no pensar originário dos antigos filósofos anteriores à metafísica.

Foi utilizando o espírito do lema fenomenológico “de volta às coisas mesmas” que M.Heidegger iniciou seu trabalho de superação do pensamento metafísico que se esqueceu de pensar o ser. É esse mesmo lema que pode resumir a atitude do AT inspirado nessa abordagem, que se encontra em constante construção em nosso trabalho, marcado pela admissão da constante impermanência de tudo que existe. Digo construção porque ela é viva e com cada instante se transforma, é constantemente repensada.

Usamos, portanto, como linha de pensamento, a herança heideggeriana. Martin Heidegger, é considerado o maior filósofo do século XX (mas como somos só “mais um susto de luz“, isso não é lá grande coisa. Importante frisar que quando utilizo essa expressão não me refiro a conceitos como espiritualidade, alma, aura, nem faço qualquer referência a esoterismo de nenhum tipo).

Essa escolha está relacionada historicamente ao marcante acontecimento que foi o encontro do psiquiatra suíço Medard Boss e seu grupo de Zurique com Heidegger[1], o que abriu toda uma perspectiva de fertilização da prática psiquiátrica e psicoterapêutica pelo pensamento do filósofo.

Dentro dessa perspectiva, poder-se-ia afirmar que o que diferencia o AT fenomenólogo, dos AT’s que se utilizam do método de trabalho das ciências naturais, seria principalmente a concepção de ser humano.

Ao contrário dessas últimas, a fenomenologia não procura enquadrá-lo numa definição prévia que o amputasse, reduzindo-o e privando-o exatamente daquilo que caracteriza seu profundo e inesgotável mistério, tornando-o, em última instância, inumano. Pois somos sempre refratários a qualquer tipo de definição objetiva. Somos sempre mais que nossos atributos ou funções: mais que um ente, que um corpo, que uma história, que um animal racional, que um animal irracional, emocional, pulsional, comportamental, neuronal, frio, técnico, robótico, clonável, mais que um CIC, um RG, um pai de família, um ente com alma, com espírito, desalmado, etc., etc., etc.

          Fundamentalmente, somos guardiões de algo sem fundamento. Somos guardiões de um fundamento nulo. Somos sem porque, como a rosa do poema de Angelus Sinésius:

“A Rosa não tem porque, floresce já que floresce”.

A partir dessas indicações, certamente insuficientes, mas evidentes em sua contraposição às definições tão bem acabadas das ciências naturais, partimos para as consequentes implicações de se sair da medida de tudo e ficarmos expostos à “ternura do puro aparecimento“ (Juliano Pessanha).

Esse modo de considerar o ente homem, na intima relação com seu ser, já o coloca sempre em existência num “fora”, já sempre num ser-com outros seres humanos, junto a tudo que vem a seu encontro numa permanente relação de cuidado com o que se apresenta na clareira de seu existir.

Outro aspecto fundamental (e que apesar de fundamental, é não fundante), nessa visão existimos nascentes-morrentes. A estrutura que nos dá condição de possibilidade compõe-se de nascimento e morte. Sendo assim, diferentemente das ciências naturais que se aplicam em pesquisas que nos levem, no limite, à imortalidade, para a fenomenologia a morte seria algo com que se contar. Contamos com a morte, assim como com a vida. O binômio complementar vida-morte é soberano.

Que implicações tem tal concepção para o trabalho do AT? Afinal o nosso doente é visto a partir dessa idéia de um existente e não de alguém que é como “coisa”; um “ente coisa”, cujo funcionamento maquínico estaria danificado por um qualquer processo patológico e que devesse ser reconduzido à saúde e readaptado a uma vida “normal”.

A tradição dessa ideia de homem nos remete a Descartes ao trabalhar com o binômio sujeito/objeto, corpo/alma, eu/mundo, res cogitans/res extensa.

Ora res é coisa e cogitans quer dizer que cogita que pensa e isso determinou que somos coisas que pensam. Mas o homem não é coisa. Coisa é outra coisa. Talvez coisa que pensa poderia ser mesmo uma máquina, um computador.

E ver tudo subdividido em coisas que pensam e coisas que possuem extensão, medida, reduz o mundo a um aspecto distorcido. Até chegarmos aos nossos dias definidos que estão pelo “fim da história” (Nietzche) ou a “Gestell” de Heidegger, mas isso é outra história que demandaria uma outra palestra.

Para a fenomenologia, o homem não está contraposto ao mundo, ele seria intrinseco ao próprio mundo, formando o mundo. "O homem forma o mundo, os animais são pobres de mundo e as coisas estão no mundo" ( M Heidegger).Ou ainda:"Não estamos no universo, somos o próprio universo, uma parte intrinseca dele. Somos um ponto focal onde o universo está se tornando consciente de si mesmo". (Eckart Tolle).

No entanto, não é possível esquecer os momentos de adoecimento desse Homo mortalis, dessa abertura luminosa que possui consciência de si, junto ao qual o AT é convocado a atuar.

            Nesse contexto, “nosso” homem, poderia ser definido como saudável se sua existência se desse na mais plena liberdade. Não numa condição onde sua vontade soberana se impusesse a quaisquer circunstâncias de vida, mas onde sua autonomia esteja preservada, garantindo sua abertura justamente àquilo que o convocasse para a atualização de sua existência.

Quando essa liberdade se encontra comprometida, a presença engajada de outros seres humanos pode ser indispensável para legitimar e liberar aquele que se encontra restringido, aquém de suas possibilidades.

Cito algumas passagens: “O homem é essencialmente necessitado de ajuda, por estar sempre prestes a se perder e a não conseguir lidar consigo. Este perigo é ligado à liberdade do homem. Toda questão do poder-ser-doente está ligada à imperfeição de sua essência. Toda doença é uma perda de liberdade, uma limitação da possibilidade de viver“ (Seminários de Zollikon, p.180).

Ou ainda:

“O mais útil é o inútil. Mas experienciar o inútil é o mais difícil para o homem moderno. O “útil” é compreendido aqui como o que pode ser praticamente utilizado, diretamente para fins técnicos, para aquilo que causa algum efeito, algo que eu possa administrar e com o que eu possa produzir. Deve-se ver o útil no sentido daquilo que cura (Heilsamem), isto é, como aquilo que conduz o homem a si mesmo” (id. p. 182).

Esses pontos já nos direcionam para algumas questões básicas.

Por exemplo, não se visa nessa atitude um resultado específico, ou seja, um prognóstico a partir da produtividade ou utilidade.

Admite-se completamente a legitimação de que aquela existência se torne ela mesma, assim como está tendo que ser, de acordo com seus limites de liberdade e autonomia.

O AT, nessa abordagem, poderia ser visto então como o guardião da possibilidade de ser daquele determinado paciente.

Heidegger no seu “Construir Habitar, Pensar” (1951) afirma que “os mortais habitam à medida que salvam a terra, tomando-se a palavra salvar em seu antigo sentido, ainda usado por Lessing. Salvar não diz apenas erradicar um perigo. Significa, na verdade, deixar alguma coisa livre em seu próprio vigor”.

A construção fenomenológica a que nos propomos, acaba dessa forma tendo um posicionamento vizinho à Anarquia, se fosse uma posição política; à anti-psiquiatria ou sua superação se fosse um movimento de cura dentro do modelo médico; à física quântica enquanto investigação dos fenômenos energéticos e a matéria; aos artistas em contraposição aos técnicos performáticos; aos artesões em contraposição às produções em série.

Creio ser essa uma cartografia possível para se localizar o Acompanhante Terapêutico numa abordagem fenomenológica.

Um possível diálogo com o pensamento oriental, poderia nos aproximar dessa concepção.

De fato encontramos no Bhagavad-gītā uma estrofe onde se lê que tudo que vem a ser advém do imanifesto.

Do imanifesto à manifestação na aurora e da manifestação à imanifestação no ocaso.

Emanar, manar, verter perenemente em abundância, uma surgência advinda em jacto do mistério, e o festar, festus, o celebrar dessa emanação.

É de Parmênides a afirmação de que tudo que é tem que ser e continuar sendo, a medida que sempre foi, e será. Daí o princípio da física de que na natureza, nada se cria nada se perde, tudo se transforma.

Se Deus desperta nos homens, somos a festa de Deus despertada e essa maneira de entender nossa existência, apesar de muito antiga, é estranha e desconsiderada em nossa época.

Atualmente essa consciência foi abandonada e tudo que é misterioso e próprio de nosso existir vai sendo varrido pra debaixo do tapete da luminosidade que assim converte tudo em exposição passível de categorização e domínio.

O misterioso vai sendo eliminado em detrimento do produtivo. Não se instala mais uma hidrelétrica em um rio, é um rio que é instalado em uma hidrelétrica, fazendo o rio desaparecer. (Esta citação é uma licença poética de uma colocação de M Heidegger na "A questão da técnica" 1953,).

E aqueles seres humanos que fora dessa armação planetária se encontram em sua fronteira perdendo sua liberdade de poder ser no mundo junto aos outros, providenciando o cotidiano, estes, são os que cabem ser assistidos (testemunhados e auxiliados), objeto de ação do manejo clínico do AT.

Nessa atitude, portanto, há a indicação de uma postura de quem se coloca lado a lado, oferecendo uma qualidade de presença "engajada". Vários autores da tradição fenomenológica desenvolvem esse ponto. Entre eles destaco Valverde (2011)[2]. (Feijó, 2011), de seu lado, fala  desse espaço de jogo onde se "tece, destece e retece a trama de sentido, que leva a uma compreensão libertadora”. E ainda Critelli (2012), que se refere a uma nova liberdade que costura “com um fio de sentido que permite com-preensão e essa com-preensão permite a liberdade que sustenta uma vida mundana e comum"

Isso especifica que a atitude de presença engajada, cura (sorge), no com -fiar = fiar-com; em outros termos: temos aqui a base da confiança restauradora dessa nova tecitura, promovendo a possibilidade de um novo com-feccionar que alimenta a liberdade e autonomia.

Tal liberdade anuncia o chão fenomenal sobre o qual poderá se dar a realização consciente, responsável e aberta às possibilidades de relações e atualizações, a que cada um de nós é chamado a zelar.

Lembremos que a palavra inglesa para são, saudável, é “Wolesome”, o que significa inteiro, a qualidade de se estar inteiro” (Boss 1963).

De fato ao existirmos em liberdade podemos nos perder, nos dilacerar e perder essa condição, estreitando nosso âmbito de estado de aberto. É nossa estrutura ôntico- ontológica que se encolhe, se apequena, e aí as possibilidades que exigem passagem podem ficar estranguladas.

O leitor pode estar se perguntando: Mas afinal em que ponto esse modo específico de abordagem, diferencia a atuação do At do tratamento psicoterápico?

A resposta é: nenhum.

Na verdade desde sempre[3], esse manejo clínico arrebentou fronteiras e se instalou como atitude geral para qualquer situação de cura (sorge). 

Basicamente, teríamos duas atitudes extremadas: a que favorece que um ser humano aproxime-se de si em uma intimidade, e outra que ajudaria esse ser humano distanciar-se do íntimo, favorecendo uma familiarização que tranquiliza e esquece do desconforto assustador de sermos, e estarmos.

A medida da atitude clínica é dada por cada situação ou evento de ser-com. E rigorosamente não difere de nenhuma outra atitude de vida cotidiana desse ser humano: ele é um só consigo mesmo, ele respira, caminha, se relaciona a partir desse modo de ser. Ele é engajado nele mesmo e isso o torna em um modo de existir que contempla esse compromisso fenomenológico que contamina tudo que ele faz.

É sutil e delicado acompanhar, (de cum panis, comer o pão), esse ou qualquer humano existente.

Mas não mais delicado e preciso do que acompanhar a si mesmo.

É de Schiller a afirmação: “Ao animal e à planta, a natureza não somente prescreve seu destino, é ela também que o realiza. Ao homem, ela apenas propõe seu destino e lhe confia o cumprimento”.

Ao termos-que-ser, nos deparamos com o que podemos suportar e atualizar, e assim cumprir.

Mas a vida nos traz possibilidades que podem nos exigir recursos que não possuímos de maneira atualizada e aí precisamos contar com o tempo, para que essas capacitações amadureçam e permitam realizações.  Se esse tempo puder ser acompanhado por um guardião “suficientemente bom” (Winicott), que se encontra em ressonância com o acompanhado, haverá uma otimização dessa possibilidade de capacitação.

Porém, ainda nesse caso o tempo é soberano, pois se costuma dizer que “os doentes se curam apesar de seus médicos”.

Comento a seguir um caso onde uma existência precisou dessa companhia ressoante para que uma restrição que punha em risco sua continuidade de existência amadurecesse e viesse a luz de maneira completa.

Quando eu ainda não era um AT, (o que comprova que essa denominação não tem reserva de mercado) fui procurado por um cidadão que me pedia ajuda para cuidar de seu ex-companheiro pois este apresentava restrições de vida, como certa desorganização e ansiedades que o levavam frequentemente a lançar pedidos de ajuda e companhia.

Não sei se por culpa ou preocupação, este individuo se dispôs a assumir a responsabilidade da contratação de meus préstimos se eu assumisse o caso.

Notem que isto já estava completamente fora do modelo de setting normatizado, quando alguém busca o trabalho psicoterápico.

Coube a mim procurar o candidato a ser cuidado (vou chama-lo de Luiz Claudio, o Kalu) para me apresentar via telefone e convidá-lo a vir até mim para uma conversa.

Ora, só me foi possível tomar esse tipo de atitude a partir de uma abordagem fenomenológica entendida dentro dessa liberdade onde as amarras da normatização não alcançam.

Ao mesmo tempo, eu estava por minha conta, e de minha supervisora. Sendo que ambos poderiam sem dúvida ser considerados bem fenô/anárquicos.

Bom, pelo telefone eu o convenci a vir até meu consultório e o Kalu que eu recebi estava sedento de companhia e com um discurso um tanto fantasioso, tentava manter um modo de estar organizado. Trabalhava em um bar da Vila Madalena como garçom e sua moradia era uma pensão meio cortiço no bairro.

Tinha uma força pessoal admirável, sendo por exemplo capaz de ler toda biografia de algum executivo publicada em uma revista de negócios, tipo Exame e com as informações conseguidas procurar se candidatar a uma vaga de faxineiro na agencia de publicidade onde o executivo entrevistado na revista era diretor. A estratégia era tentar um encontro com o mesmo e convencê-lo de ser contratado como contato.

Cheguei mesmo a duvidar e pensar que a história fazia parte de seu mundo fantasioso, onde se refugiava para suportar tanta frustração e desespero. Ele era alguém bem talentoso e sensível, mas sem os recursos para conseguir cavar um lugar e sustentar sua presença se impondo no mundo.

Era uma existência esmagada pelo mundo da produtividade. Tinha o talento da estratégia e da criatividade, mas fracassava quanto à agressividade necessária para exigir seu direito à cidadania.

O fato é que agendou sua entrevista na agência. Na data acertada obteve autorização para entrar no prédio da empresa e se dirigir a sala de entrevista e seleção de pessoal. Burlou então a segurança e subiu até o andar da diretoria, apresentando-se como indicado por um tal de Sérgio para uma conversa com o sócio/diretor da agência.

É obvio que havia nada acertado com o diretor, mas ele referiu-se a este com tantos detalhes que a secretária ficou em dúvida se não seria melhor tentar acolher seu pedido.                       Realmente, (depois verifiquei que não era um delírio) ele conseguiu se entrevistar com o tal sócio, que demorou a perceber que se encontrava diante de um ser humano que, apesar de talentoso, era um impostor[4].

A diferença era que, apesar de sua sagacidade, e sem ter um desvio de personalidade, era um habitante da margem, um cidadão fronteiriço, e em momentos de crise desabava, em surtos que o impediam de sustentar uma atitude vitoriosa ao providenciar o cotidiano.

Nossos encontros começaram dentro de um formato de setting mais tradicional, pois afinal ele conseguia vir até meu consultório. Mas o dia e a hora agendados não pertenciam à cronologia comum. Vinha sempre para as sessões, (duas vezes por semana), mas em dias e horários diversos, sempre à tarde mas de maneira imprecisa.

Reparei que seu tempo era diferente do tempo comum de todos nós. Era assim muito rigoroso na sua busca de ajuda. Vinha depois do almoço e ficava aguardando por uma vaga em minha agenda para ser atendido.

Com o tempo foi se apropriando do espaço de meu consultório, onde minha secretária o recebia e o orientava.

Concomitantemente, sua estrutura de ação no mundo foi aos poucos encolhendo: perdeu seu emprego de garçom, perdeu seu quarto na pensão, começou a frequentar o “Sopão”, albergando-se nos centros de acolhida da Prefeitura.

Acabou não conseguindo mais se organizar para sequer seguir as regras mínimas até para frequentar o Centro de Acolhida.

Sua frequência no consultório se tornou mais caótica e eu não tinha nem como mais saber dele, à medida que ia se tornando um morador de rua, sem endereço nem contato possível.

Sua indigência existencial agora se alastrava e finalmente vingava completamente. Compreendi, (mas confesso que desconfiando se eu não estava fracassando em meu propósito de ajudá-lo) que ele precisou de aporte terapêutico para conseguir adoecer, dar curso a sua restrição de liberdade.

Com minha companhia a cuidá-lo ele pode existir em seu modo indigente. Era como se antes em sua completa solidão, em um esforço extremo, ele ainda precisasse se privar de adoecer completamente. Minha presença modificou o quadro, como se o que estava incubado pudesse finalmente ganhar expressão. O que me faz lembrar que quando eu era criança minha avó costumava se referir a algumas doenças que ficavam em estado de incubação para depois virem à tona. Como um vírus que antes do corpo manifestar seus sintomas correspondentes, fica em período de incubação.

Agora a situação era de vulnerabilidade. Ele comparecia aos encontros de forma desorganizada e seu discurso oscilava entre alguma coerência linear, e uma fala caótica em um surto delirante.

Estava muito claro para mim que o protocolo que eu estava utilizando era muito pobre para dar continuidade de cuidados a ele. Eu sabia que a intervenção medicamentosa já havia se tornado imprescindível e isso me convocava para uma intervenção direta.

Mas como fazê-lo? Consegui a informação de meu contratante (o ex-namorado) que sabia o nome de uma irmã de Kalu que trabalhava em uma loja de um shopping center da cidade.

Busquei o telefone da loja e consegui achá-la no trabalho. Expliquei a ela toda situação de seu irmão e ela providenciou o contato com seus pais que moravam em uma cidade próxima à capital.

O contato com os pais foi difícil, pois em principio desconfiaram muito de toda a situação. Estranharam minha preocupação e cuidado, suspeitando muito desse meu interesse e até insinuando que eu deveria ter propósitos excusos inconfessáveis em relação ao Kalu.

Lidei com a situação da melhor maneira possível e consegui trazê-los a São Paulo Eles eram os responsáveis mais diretos que poderiam providenciar uma intervenção adequada para a situação: levá-lo a uma possível internação para ser medicado ou mesmo a algum aparelho (Caps) que em um trabalho em rede multidisciplinar poderia ser bem mais adequado.

Criei junto a esses pais um esquema de campana. Eles vinham no período da tarde e esperavam no consultório que Kalu aparecesse.

Demos sorte pois na terça-feira seguinte ele apareceu. Estava sem banho, barba por fazer e bastante desnutrido. Sua surpresa foi grande ao avistar seus pais. Abraçou sua mãe, mas manteve distância e cautela em relação ao pai.

Subimos para a sala (havia deixado as tardes reservadas para esse encontro, desmarcando a cada vez meus outros pacientes), onde uma conversa difícil foi sendo entabulada. Seus pais estavam perplexos com seu modo atual de existir e fui explicando a ele  que eu os havia chamado para que ele pudesse ser ajudado mais adequadamente a se organizar e poder voltar a trabalhar, administrar sua vida e se defender  dos inimigos. Ultimamente, de fato, como ele mesmo foi explicando, percebia que esses o perseguiam sem lhe dar trégua a ponto de muitas vezes ter que se esconder na casa de pessoas desconhecidas para não ser agredido ou machucado, pois queriam que ele sofresse, que ele sentisse dor. (Esse discurso delirante vivia nos últimos tempo fazendo parte de nossos encontros).

Estou economizando um pouco minha descrição, mas para o que pretendo com esse relato, não vejo necessidade de ser mais detalhista.

Os pais convidaram-no a aceitar  ajuda e a ir com eles para sua cidade natal. Em principio ele se negou a aceitar, dizendo que não iria porque seu pai não gostava, nem nunca havia gostado de sua pessoa. Ele sabia muito bem que não era aceito, portanto não fazia sentido ir.

Fui tentando desconstruir essa situação e consegui de seu pai uma declaração de afeto e carinho (que não foi muito convincente). Para minha surpresa, ele diz que se fosse verdade que seu pai o amava, ele deveria beijá-lo na face.

Fulminei com meu olhar seu pai, significando que ele deveria beijá-lo imediatamente: ele percebeu e assim o fez.

Kalu reage dizendo que aquele beijo não valia de nada como prova de amor, pois ele o recebeu na face direita do rosto. O beijo correto teria que ser dado na face esquerda, do lado do coração.

Imediatamente o pai beija-o, agora de forma “correta”, e ele acaba indo com seus pais.

Mais tarde fico sabendo que os pais haviam conseguido acolhimento no Caps de sua cidade e a partir disso não tive mais notícias do Kalu.

Esse relato serve de exemplo daquilo que tem sido minha rotina como clínico atuante nesses últimos 30 anos.

Esse método investigativo nos permite embasar um trabalho com muita liberdade de ação. Autoriza-nos a ressoar, e esclareço que uso essa expressão pela sua sonoridade e por sua referência a um acorde vibracional, o que descreve bem nossa busca de uma harmonia correspondente a cada situação que se apresente: abrir se está fechado, fechar se está aberto. Molhar se está seco, secar se estiver molhado.

Atuar no mundo como quem complementa as situações de forma a efetivar uma realização.

Nesse sentido, nossa atuação poderia  ser comparada muito mais à arte do que ao emprego de uma técnica.

Assim, a cada situação que o Kalu me apresentava, eu buscava corresponder a partir daquilo que me convocava na própria situação. Nunca foi uma interpretação a partir de qualquer teorização prévia. Era tudo sempre muito vivo, intenso e servia apenas para aquele momento específico.

A atitude que responde adequadamente a um certo momento, horas mais tarde pode não funcionar, o que acaba com qualquer ilusão de se construir um manual de procedimento.

Não há previsões certeiras, apenas um estado de alerta para cada surpresa do mundo.

Talvez o que o próprio Freud chamava de atenção flutuante possa ser evocado como nossa referência  e enquanto atitude.

Estamos muito mais para poeta infernizado do que para cientista de Prêmio Nobel.

Como afirma Juliano Pessanha (2000), “Penso com Heidegger que a experiência que revela o caráter intrinsecamente sintomático de toda teoria não é uma experiência ensinável, ela acontece ou não. Dizer a alguém num instituto de formação profissional “primeiro você vai estudar direitinho a teoria do aparelho psíquico e das posições de Klein, depois todas as fases do amadurecimento de Winnicott ou as estruturas de Lacan e feito isso você precisa saber que quando estiver escutando o outro, você  não o escutará a partir de nada disso, mas do lugar vazio que a angustia cavou” (p.92)

E era isso que eu possuía para me guiar nas decisões que fui tomando ao acompanhar Kalu.

Sua existência foi me desafiando mostrando-me que tudo que eu havia aprendido de orientação em termos ortodoxos na academia, simplesmente fracassava.

Faz-se necessário construir uma nova academia e ela já se desenvolve aos poucos por todas as áreas. Principalmente a atualidade nas pesquisas da física quântica.

Mas também na antropologia, onde encontrei nos estudos de Carlos Castañeda referências significativas.

Em uma publicação acadêmica, “ O Caminho do Guerreiro” (1996)[5], Carlos Castañeda afirma que, sem o saber, os Shamãns (objeto de estudo desse famoso antropólogo) eram praticantes autodidatas do método fenomenológico (pag.33). Lembremos que os Shamãns expandem os parâmetros do que eles podem perceber ao ponto de perceberem sistematicamente o desconhecido (pag. 22).

Cito essa referência a título de localizar essa atitude de pesquisa e mesmo de experiência vital, como sendo mais originária e nesse sentido conseguir contemplar o que em nós é mais humano e assim adequado ao que em nós se mantém em saúde.

O Homem, com o desenvolvimento das ciências, distanciou-se do humano e mais do que fomentar o desumano, se encaminhou para o fomento do inumano.

Kalu sofria exatamente dessa inumanização, algo bem mais profundo do que o mero desumanizar.

Meu trabalho e meu modo de existir naquela época, e hoje, encaminha-se para estar sempre aberto ao desconhecido, a cultivar o humano, a desejar a vida e assim receber a morte. Talvez eu seja um shamãn, sem o saber direito.


[1] Entre 1959 a 1969 esses encontros foram registrados no livro Seminários de Zollikon já traduzido para o português pela editora Vozes.

[2] Logologia, logacusia, loguiatria são termos que discutem de maneira singular esse conceito de engajamento na obra desse autor.

[3] Consideremos a atitude do Dr. Boss no "Caso da Dra. Cobling" (1963) quando ele literalmente alimenta com uma mamadeira, pegando no colo, como uma bebezinha sua paciente.

[4] Kalu lembrava muito Marcelo Nascimento da Rocha, considerado um dos maiores golpistas do país, cuja história inspirou o filme “VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso”, e que vive atualmente de palestras e treinamentos sobre técnicas de persuasão. Marcelo é acusado de aplicar golpes em pelo menos quatro estados, incluindo comercializar coisas inexistentes. "Eu vendia coisas absurdamente incríveis e que nenhuma pessoa compraria, em sã consciência. Tipo terreno no mar. Cheguei a vender vários, um condomínio quase", conta. Mas o episódio mais famoso envolvendo o falsário foi quando fingiu ser o filho do dono de uma das maiores companhias aéreas do país durante entrevista a um programa veiculado em rede nacional.

[5] Leitores do Infinito, uma revista de hermenêutica aplicada.

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