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Os Eremitas Urbanos

A etimologia revela a origem das palavras e costuma libertar o sentido daquilo que se quer investigar. Sendo assim, comecemos.

Eremita: do grego eremités; pelo latim eremita –
s.m. pessoa que vive no ermo.

Ermo: do grego éremo; pelo latim eremu –
s.m. lugar sem habitantes, deserto, descampado, desolado;
adj. solitário, desabitado, desertificado (desamparado?).

Ermo: s.m. pop. elmo -
1. armadura antiga para cabeça, espécie de capacete;
2. crosta escura que se forma na cabeça das crianças por falta de limpeza.

Possuir uma existência (acontecência) desertificada, e viver em uma "toca" para não ser tocado. Entocar-se parece ser o modo de isolamento preferido para o desolado.

Podemos a partir disso começar a perguntar por essa pessoa.

Quem é esse que se torna um ermitão? Será que o faz por escolha?

De que precisa ele se isolar em seu desolado reduto deserto? O que o ameaça tão visceralmente?

Refiro-me a esses inumeráveis casos de pessoas que vivem entocadas em suas ‘residências-colméias’ espalhadas pelas metrópoles do mundo.

Desconheço estatísticas brasileiras. No Japão já passam de 1,2 milhões e são chamados de ‘hikikomoris’. Há pouco tempo foram notícia trágica no mundo, pois nove deles se juntaram usando a Internet como ponte de comunicação e promoveram um suicídio coletivo.

Os que conheci aqui pelo Brasil, entre amigos, pacientes e outros tantos, de tantos tipos, eram prisioneiros (nem todos) de um modo de existir, emocionalmente falando, em que somente o acuar-se, o retirar-se do mundo dentro do próprio mundo permitia um mínimo de pouso sem nenhum repouso, sem paz de espírito (mas afinal quem a tem de verdade?).

Alguns até que se cuidam muito bem, não estão tão comprometidos, mas simplesmente não acham que vale a pena conviver com todos nos moldes mais corriqueiros do dia a dia.

Outros são ‘bernardos-eremitas’. Há no mar um crustáceo de nome curioso: bernardo-eremita é um tipo de lagostim que possui a parte anterior do corpo completamente sem proteção de carapaça. Ele é em carne viva, justo na retaguarda onde está mais vulnerável. Para se proteger, procura conchas que outrora foram moradas de moluscos. Ao encontrá-las, ele se enfia nelas pelas costas, e pronto: carrega consigo a armadura para se proteger de agressores.

Todos nós, de alguma forma fazemos isso. Nossa pele, nossas roupas, nossas couraças musculares, nosso intelecto, etc., etc., nossa auto-estima. Usamos tudo isso para nos proteger.

Protegemos principalmente o que é em nós carne viva. Às vezes conseguimos um exoesqueleto tão duro que corremos o risco de calcificar. Podemos endurecer por fora e por dentro e até sofrermos, por exemplo, um enfarto, mas isso é assunto para um outro artigo.

Às vezes podemos usar a proteção de um outro ser, usá-lo como concha- prótese para nos amparar.

Outros, como aponta Yves Leloup em seu ‘Deserto Desertos’, retiram-se para forjar no silêncio a própria identidade, à medida que se despojam de si mesmos e enfrentam seus demônios. O deserto é um lugar propício para um intenso encontro consigo mesmo.

Outros, ainda bem mais comprometidos, não têm outra opção que não o recuo para suas fronteiras, que muitas vezes coincidem com a porta de seus quartos. Costumam dormir durante o dia, habitantes das trevas, longe do tumulto. Internet e televisão nas madrugadas são seus contatos com o mundo de fora.

Podemos pensar que esse modo de existir possui características peculiares. Ele envolve medo, angústia e ansiedade. Neste sentido, muitas vezes esse modo afinado de estar no mundo tem muitas características da síndrome do pânico, tão comum e epidêmica nos nossos dias.

O medo é de quase tudo e de todos (incluindo de si mesmo). A angústia parece não estar presente. A ansiedade é a verdade do medrar.

Aquilo de que se teme estar diante sempre é, como diz Heidegger, um algo que vem ao encontro dentro do mundo : “...O que se teme possui o caráter de ameaça... Esta sempre adviria de uma determinada região e esta e o que vem dela como temível possui a não familiaridade...O que ameaça nunca se acha no medo, numa proximidade dominável, ele se aproxima” (Heidegger M.-SER E TEMPO Petrópolis,Vozes pg-195). A experiência é de estar impotente em relação à ameaça. Afinado e determinado pelo medo, esse existir se encontra aprisionado por essa armadilha. O medo desvela esse ente-homem no conjunto de seus perigos, no abandono de si mesmo. Responsável completamente por si e sem ainda possuir recursos para lidar com tal grau de ameaças, esse ser humano só encontra possibilidade de sobrevivência dentro do que ainda se preserva como familiar: SUA TOCA!

Se nos reportarmos às suas histórias pessoais detectamos que os cuidados paternos de alguma forma foram negados ou insuficientes. O psiquiatra japonês, Dr. Tamaki Saito, refere-se assim à DDAP - Distúrbio de Deficiência da Atenção do Pai - como um motivo comum que traria essas conseqüências para esses eremitas.

Mas não nos enganemos: filhos criados sob intensos cuidados também apresentam esses sintomas. Não raro podemos encontrar, na verdade, várias maneiras de um não cuidar. Usar um filho como resposta às próprias necessidades pode ser até mais prejudicial do que abandoná-lo. Muito ajuda quem pouco atrapalha é um ditado bem conhecido por todos. Mas, muitas vezes, para os envolvidos, essa é a única forma de relacionamento possível naquelas circunstâncias específicas. Segundo Winnicott, fazer mal a alguém é não estar lá quando ele precisa de você. Mas, é claro, deve-se ressaltar que esse estar presente deve contemplar a necessidade do ponto de vista daquele que requer sua presença. Isto implica em reconhecimento do outro como outro, uma alteridade.

Cuidar para me encontrar com o outro em sua singularidade. Isso me forçaria, me convocaria para meu próprio ser singular, e aí posso acolher o outro numa ‘solicitude devoluta’ (Heidegger M-SER E TEMPO Petrópolis,Vozes pg-173), que não impõe suas carências nem impõe a mim (o outro) a culpa por não preenchê-las. Costuma-se brincar dizendo-se: “menino, ponha a blusa porque sua mãe está com frio”. Pode parecer a primeira vista um cuidar, um cuidar talvez excessivo, mas de qualquer modo isso sugere como aquele que ainda não dá conta de sua própria existência e que portanto depende de cuidados alheios pode, desde ao se tratar de uma bobagem como usar ou não uma blusa, até questões mais importantes e fundamentais para sua existência, ser impedido de se constituir em sua singularidade, o que pode levá-lo a sucumbir diante das exigências do mundo, por não contar consigo de forma suficientemente confiável para arcar com o que ele entende que terá que constituir como resposta.

Sendo assim, acompanhamos esses que se recolheram, indo até eles lá, onde se encontram e, uma vez autorizados a ali permanecer, suportando esse estar ao lado. Isto pode e é uma excelente proposta de abertura de um espaço para a terapia.

Mas isso não será possível. Um contato real não se estabelecerá senão a partir da experiência de si mesmo como eremita. Preciso, antes de mais nada, de um contato íntimo comigo mesmo, (re)conhecer em meu deserto os meus abismos, em minha solidão os meus demônios. Só poderei compreender aquilo que, em minha própria alma, não me for estranho e ainda assim, paradoxalmente, o outro permanecerá completamente outro em sua experiência.

Em outras palavras, é preciso que eu possa me bastar. Mas, o que isto quer dizer? Aí vai mais um recurso etimológico: bastar vem do germânico bastázo que significa sustentar, e do latim vulgar bastare, ser bastante, suficiente, ter suficiência própria. Neste sentido apenas quando me basto, posso então abrir espaço (bastante) para qualquer outro poder ser a partir de mim. Pois me sustento e isto cria um campo de presença que não pressiona, apenas convida de forma mais ou menos isenta. Mais cedo ou mais tarde, se for possível, o outro se tornará independente e voará com as próprias asas escolhendo em liberdade aonde deseja habitar: se junto aos outros ou solitariamente. Neste caso, a diferença agora é que ele estaria escolhendo não ir para o mundo, podendo tomar conta de si. Escolher e realizar seu próprio destino. Algo que antes só podia visitar em suas fantasias.

A idéia, então, é a de que alguém que aprendeu a nadar vá em busca do afogado, mergulhando profundamente no mesmo mar, arriscando-se ao mesmo afogamento e em companhia, apenas em companhia envolvida e comprometida, possa abrir um espaço que se tornará útil para que este outro ouse braçadas salvadoras. Enquanto isso, interferir apenas para garantir que o outro não morra é a única licença à regra: muito ajuda quem pouco atrapalha.

Neste ponto gostaria de continuar apenas levantando questões. O que quer dizer escolher ser um eremita para ajudar outros? O que é mesmo fazer uma viagem interior para saber de si mesmo? O que acontece nessa viagem para que milenarmente se afirme que isso seria suficiente para proporcionar sabedoria e transformá-la em ferramenta para abrir tantas portas? Por que todos continuam a afirmar (menos nossa ciência metafísica) que só eu é que posso ter o poder de curar a mim mesmo? Recebo ajuda para não me afogar, mas só eu posso continuar minhas braçadas.

Enfim acho que pilhas de perguntas podem continuar sendo colocadas, muitas delas para as quais temos ilusão de possuir as respostas; outras devem continuar resistindo ao imenso mistério que somos.

Um bom homem verdadeiramente interessado em si e nos outros conta com isso.

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